Há um povo que só existe durante algumas semanas por ano.
Aparece a 2 de janeiro, ao fim da tarde, com sapatilhas demasiado brancas e uma garrafa de água de dois litros comprada na véspera, como quem se prepara para atravessar o Alentejo a pé. Ocupa territórios bem delimitados: a passadeira, as máquinas que parecem menos perigosas e, sobretudo, o balneário. Tem rituais próprios, vocabulário próprio («hoje é dia de pernas», «estou só a aquecer») e uma fé no futuro que poucas religiões organizadas conseguiram manter durante tanto tempo.
Depois, algures entre o fim de janeiro e o Carnaval, desaparece sem deixar rasto. Não há registo de guerras, fomes ou epidemias. Simplesmente deixa de vir.
Nós somos desse povo. Todos os anos.
1.1 Ficha de campo
Tribo dos inscritos em janeiro Homo januarius
- Avistamento
- A partir de 2 de janeiro, ao fim da tarde.
- Habitat
- Passadeira, máquinas que parecem menos perigosas, balneário.
- Rituais
- Fotografar o primeiro treino. Dizer «estou só a aquecer».
- Migração
- Entre o fim de janeiro e o Carnaval. Destino desconhecido.
- Conservação
- Sem risco. A população renova-se todos os anos.
A coisa começa sempre no mesmo sítio: à meia-noite de 31 de dezembro, com um copo na mão e uma certeza que, durante cerca de quarenta minutos, parece irrefutável. O ano que vem vai ser diferente. Não sabemos exatamente porquê, mas sabemos. Está no espumante, está nas doze passas engolidas à pressa, está naquele momento em que o nosso cunhado — já lá iremos ao cunhado — diz «para o ano é que é» e três ou quatro pessoas concordam com uma convicção que resulta de tudo menos de pensamento racional.
A 1 de janeiro não se faz nada, por respeito. É um dia de luto pelo ano anterior, pelo bacalhau da consoada e por tudo o que se comeu desde o jantar de Natal da empresa. Mas a 2 já estamos inscritos.
A inscrição é, provavelmente, a melhor parte de fazer exercício.
Entramos no ginásio da rotunda às sete e um quarto da tarde e somos recebidos por um rapaz de vinte e seis anos, camisola justa e pele de quem dorme oito horas por noite, chamado Diogo. O Diogo aperta-nos a mão com a firmeza suficiente para transmitir uma mensagem: a nossa vida, até aqui, foi um equívoco, mas um equívoco corrigível. Depois pergunta-nos quais são os nossos objetivos.
— É mais pela saúde.
Ele escreve qualquer coisa num tablet. Nunca saberemos o quê.
Segue-se a avaliação física, que é uma maneira pomposa de dizer que nos mandam tirar os sapatos, nos põem em cima de uma balança de bioimpedância e nos entregam números de que não estávamos à espera. Massa gorda, massa magra, água corporal e, no fim, como sobremesa, a idade metabólica. Temos quarenta e um anos. A máquina acha que temos cinquenta e quatro.
1.2 Avaliação física
METABÓLICA54
É uma estimativa do aparelho, não uma certidão de nascimento, mas o susto não se interessa por essa distinção. O Diogo diz que é para isso que cá estamos e sorri como um mecânico que acabou de encontrar ferrugem no nosso carro e, por coincidência, tem uma peça nova a muito bom preço.
Depois vem a visita guiada. Isto é o cardio. Isto é o treino funcional, com cordas grossas como as de um navio e pneus que ninguém sabe de que camião vieram. Aqui ficam as aulas de grupo (a de terça é «muito puxada», avisa o Diogo, com orgulho). E ali, ao fundo, a zona dos pesos livres, onde homens de pescoço largo grunhem para os espelhos e onde percebemos de imediato que não entraremos nunca. O Diogo não insiste. Também ele parece respeitar a fronteira.
De volta ao balcão, explica que, por coincidência, naquele mês a inscrição está isenta.
Está sempre isenta. A inscrição de ginásio é a coisa mais permanentemente isenta do universo conhecido e, ainda assim, consegue soar todos os anos a uma oportunidade irrepetível que nos caiu no colo por sorte.
Assinamos uma fidelização de doze meses.
Doze meses. Assinamos doze meses num dia em que ainda sentimos que a digestão do Natal não terminou. Comprometemos um corpo que, nas três semanas anteriores, executou sobretudo dois movimentos: levantar-se da cadeira e voltar a sentar-se. Assinamos com uma mão que ainda cheira a rabanadas.
1.3 O contrato
Contrato de adesão · Plano anual
Sócio n.º 4127 · 2 de janeiro · Objetivo: «É mais pela saúde.»
- Taxa de inscrição
30,00 €- Mensalidade
- 39,90 €
- Período de fidelização
- 12 meses
- Total comprometido
- 478,80 €
(com uma mão a cheirar a rabanadas)
E sentimo-nos muito bem. Saímos dali quase magros por antecipação, com um cartão de sócio na carteira e uma aplicação no telemóvel que nos dá as boas-vindas pelo primeiro nome e nos atribui um plano chamado, sem ironia nenhuma, «Transformação 90». A inscrição funciona como uma indulgência medieval com débito direto: ainda não fizemos nada, mas já começámos a merecer crédito moral por aquilo que tencionamos fazer.
Nessa noite jantamos pizza, para celebrar.
Na primeira semana, à hora a que saímos do trabalho, há fila para as passadeiras. Doze máquinas, dezanove pessoas e uma folha A4 presa com fita-cola ao espelho: «Em horas de ponta, máximo de 20 minutos por máquina. Obrigado!» O Diogo sugere que venhamos mais cedo. Explicamos que, mais cedo, estamos a trabalhar para pagar a passadeira. Ele compreende. Tem muita experiência em compreender pessoas que acabam de assinar doze meses.
O negócio dos ginásios não é propriamente um segredo de Estado. Assenta, em boa parte, em pessoas que pagam e aparecem menos do que imaginavam quando assinaram. Se todos os inscritos de janeiro aparecessem com a regularidade que juraram na passagem de ano, muitas salas entravam em colapso. O ginásio vive das nossas faltas como uma seguradora vive dos acidentes que não acontecem. E nós, justiça seja feita, colaboramos.
Esta espera, porém, não nos arrefece o entusiasmo. Não comprámos apenas acesso a umas quantas máquinas de musculação. Comprámos acesso a uma versão nossa que ainda não existe. Trinta e nove euros e noventa por mês por uma pessoa hipotética. Visto assim, até parece barato.
A primeira semana corre bem. Corre bem no sentido em que acontece.
Vamos três vezes, segunda, quarta e sexta, como manda a «Transformação 90», e descobrimos coisas sobre nós próprios, quase todas desnecessariamente humilhantes. Descobrimos que quinze minutos de passadeira são mais longos do que um domingo à tarde em novembro. Descobrimos músculos em sítios onde não sabíamos que havia sítios. E descobrimos a senhora da bicicleta número quatro: sessenta e três anos (disse-nos, sem que perguntássemos), auriculares com fio, lê as notícias no tablet enquanto pedala e, ainda assim, ultrapassa-nos em praticamente todas as dimensões relevantes da existência.
Descobrimos também os espelhos. Há uma crueldade arquitetónica num lugar destinado a pessoas que querem mudar o corpo estar forrado de superfícies que lhes mostram, em alta definição e de vários ângulos, a razão pela qual ali estão. Nenhum outro comércio se atreve a tanto. As pastelarias, por exemplo, não põem espelhos ao lado da montra.
Na segunda semana vamos duas vezes. Na terceira há um jantar de anos na terça-feira e uma reunião que se prolonga até às oito na quinta. Saímos do trabalho com a mochila ao ombro, como um atleta, e metemo-la no banco de trás do carro, como alguém que vai para casa.
A mochila fica ali. Na manhã seguinte, ocupa o lugar de um colega a quem damos boleia.
— Andas no ginásio?
— Ando.
Tecnicamente, a mochila anda mais. Vai connosco para o trabalho, ao supermercado, à oficina por causa de um barulho no travão e aos correios buscar uma encomenda. Tiramo-la do carro no domingo, para haver lugar para as compras, e voltamos a pô-la lá na segunda, por uma questão de princípio. A toalha continua dobrada como veio da loja.
1.4 A vida da mochila
Na quarta semana, só nos lembramos da nossa condição de atletas quando o banco nos manda uma mensagem: débito direto, trinta e nove euros e noventa.
Não somos os primeiros a perder o entusiasmo. E há quem o tenha medido.
Em dezembro de 1985, um psicólogo americano chamado John Norcross reuniu duzentas pessoas que tinham decidido mudar alguma coisa na passagem de ano e foi-lhes perguntando, durante dois anos, como estava a correr.1 Ao fim de uma semana, 77% ainda cumpriam. Ao fim de um mês, 55%. Aos seis meses, 40%. Dois anos depois, restavam 19%. Não era um estudo sobre o nosso ginásio, nem uma previsão do nosso destino. Mas tem um desenho que reconhecemos.
1.5 A curva do abandono
Três décadas depois, alguém foi procurar o dia exato em que a curva cai. Em janeiro de 2018, a Strava, uma aplicação onde milhões de pessoas registam corridas e voltas de bicicleta, analisou mais de trinta milhões de atividades e concluiu que a segunda sexta-feira de janeiro era o dia em que mais gente desistia.2 Nos anos seguintes, com mais dados, a data foi mudando (uma quinta-feira em 2019, um domingo em 2020), mas a ideia ganhou nome: Quitter’s Day, o dia dos desistentes. E a segunda sexta-feira ficou como data oficiosa. Há um momento, poucos dias depois do início de cada ano, em que uma parte considerável da humanidade percebe que tornar-se uma pessoa nova dá mais trabalho do que parecia à meia-noite de 31 de dezembro.
1.6 O próximo dia dos desistentes
Janeiro
- 2018 · sexta-feira, 12 de janeiro
- 2019 · quinta-feira, 17 de janeiro
- 2020 · domingo, 19 de janeiro
O mais interessante, porém, não é desistirmos. É voltarmos. Falhamos em janeiro, seguimos com a vida e, doze meses depois, fazemos a mesma promessa com a cara de quem acaba de ter uma ideia original.
E, para sermos justos com a tribo, voltar não é estupidez. Anos mais tarde, o mesmo Norcross comparou quem faz promessas de Ano Novo com quem só pensa em mudar: ao fim de seis meses, 46% dos primeiros ainda cumpriam; dos segundos, 4%.3 A promessa não é o problema. O problema costuma ser o tamanho dela.
Em Portugal, tudo isto ganha uma dimensão adicional. No Eurobarómetro sobre desporto e atividade física de 2022, 73% dos portugueses disseram que nunca faziam exercício nem praticavam desporto, o valor mais alto da União Europeia.4 A média europeia era 45%. Fazê-lo regularmente, cinco ou mais vezes por semana, só 4%.
1.7 Em cada 100 pessoas
- Nunca73
- Raramente5
- Com alguma regularidade
1 a 4 vezes por semana18 - Regularmente
5 ou mais vezes por semana4
Pode discutir-se o que cada um entende por «exercício» quando um desconhecido lho pergunta. Subir três andares com as compras talvez não conte. Mesmo assim, custa ler a palavra «nunca». Sobretudo numa casa onde se comenta, do sofá, que o ponta de lança do nosso clube já não tem pernas.
Depois chega a fase do equipamento, que é quando concluímos que talvez o problema não esteja em nós. Está nas sapatilhas.
As sapatilhas não têm amortecimento suficiente. A camisola é de algodão, e o algodão (aprendemos num vídeo de nove minutos, visto precisamente à hora a que devíamos estar a treinar) é um erro de principiante. Precisamos de tecido técnico, de meias com zonas de compressão, de uma garrafa térmica e de uma toalha de microfibra que seca em quatro minutos e que, se tudo correr como até aqui, nunca chegará a molhar-se. Gastamos em equipamento o equivalente a quatro mensalidades, o que tem uma lógica impecável: se não vamos ao ginásio, ao menos que a roupa esteja à altura das nossas intenções.
1.8 O equipamento e o relógio
Fatura simplificada
— fevereiro —
- Dormiu 5 h 47 min. Abaixo da sua média.
- Índice de recuperação: 38/100.
- Hoje, o seu corpo pede descanso.
- Está sentado há uma hora. Que tal levantar-se?
- Objetivo de movimento: 12% concluído.
Compramos também um relógio. Na caixa, diz que nos vai ajudar a conhecer melhor o corpo. Ao fim de uma semana, já sabemos coisas sobre o corpo que preferíamos não ter recebido por notificação: que dormimos cinco horas e quarenta e sete minutos, que o nosso índice de recuperação é 38 em 100 e que hoje, segundo o próprio relógio, o corpo pede descanso. O corpo pede descanso desde 2009; a novidade é haver um gráfico. Sem darmos por isso, o relógio troca o movimento pela informação sobre o movimento. A partir desse dia, deixamos de fazer exercício. Passamos a gerar dados.
A fase seguinte é social, que é quando a coisa envolve outras pessoas e, portanto, se torna perigosa.
Alguém cria um grupo de WhatsApp chamado «Este verão — AGORA É QUE É 💪». Tem sete membros: dois nunca escrevem, um escreve tudo e os restantes passam alguns dias a publicar fotografias de passadeiras, distâncias percorridas e emojis de fogo.
O membro que escreve tudo é o nosso cunhado, o Rui. O Rui partilha um artigo sobre jejum intermitente com a legenda «isto é que é ciência» e um vídeo de um rapaz de vinte e três anos, em tronco nu, que explica em quarenta segundos por que razão os médicos andam a esconder-nos a verdade sobre os hidratos de carbono. O rapaz tem meio milhão de seguidores e um código de desconto para proteína em pó. Os médicos, aparentemente, não têm código de desconto nenhum, o que os torna muito suspeitos.
Segue-se uma discussão de dois dias sobre se o pão de mistura conta. E há alguém, a prima Sónia, que anuncia ter cortado o açúcar há quatro dias e sentir uma energia completamente nova, afirmação biologicamente difícil de verificar e socialmente impossível de contestar.
Duas semanas depois, a última mensagem do grupo é a fotografia de um pastel de nata com a legenda «hoje era o dia livre».
1.9 O grupo
5,2 km32 min🔥
O grupo nunca é apagado. Fica no telemóvel, silenciado, como um pequeno monumento às nossas intenções. Em dezembro, alguém há de ressuscitá-lo com uma das frases mais persistentes da língua portuguesa:
— Pessoal, e se voltássemos?
Entretanto, no fim de fevereiro, o Diogo manda uma mensagem a perguntar se está tudo bem. Está. É precisamente esse o problema: não aconteceu nenhuma tragédia que justifique tantas faltas. Houve trabalho, chuva, uma ida à oficina e duas noites mal dormidas, devidamente documentadas pelo relógio. Respondemos que têm sido umas semanas complicadas. Ele pergunta se queremos marcar um treino curto para terça-feira, às sete.
Na terça chove outra vez. A diferença é que há um rapaz à nossa espera e já lhe dissemos que sim. Vamos. Fazemos um treino de vinte minutos: dez de bicicleta, dois exercícios com halteres que parecem de brincar e um alongamento que o Diogo faz connosco com a paciência de quem ensina uma criança a apertar os atacadores. Saímos sem qualquer sensação de renascimento e chegamos a casa a tempo de jantar. A mochila, finalmente, tem uma toalha para lavar.
Não passámos a ir três vezes por semana. Durante algum tempo (março, abril, um bocado de maio), conseguimos ir à terça. O resto do calendário ficou por conquistar.
Temos uma vizinha no segundo direito, a D. Celeste: setenta e um anos e um impermeável verde que conhecemos melhor de costas do que muitas caras de frente. Há décadas que vai a pé ao mercado, de terça a sábado, que é quando o mercado abre. Não sabemos quantos passos dá, qual é a sua frequência cardíaca média nem se alguma vez fechou um círculo num ecrã. Vai ao mercado, volta com os sacos e, no dia seguinte, faz o mesmo. A única fidelização que lhe conhecemos é com o Sr. Abílio do peixe.
Em janeiro, cruzámo-nos com ela quando íamos de carro para o ginásio, onde depois demorámos quase dez minutos a encontrar um lugar suficientemente perto da entrada. Para ir fazer exercício.
Sabemos o nome do nosso plano de treino, a percentagem de gordura que a balança calculou e a marca das sapatilhas do Diogo, que passámos a desejar. Da D. Celeste sabemos apenas isto: lá ia.
1.10 Dois calendários
Nós sócios desde 2 de janeiro
D. Celeste 2.º direito · impermeável verde
Numa dessas terças-feiras, voltamos a cruzar-nos à porta do prédio. Ela segura-nos a porta com o pé enquanto procura a chave na carteira. Oferecemo-nos para levar um dos sacos até ao elevador.
— Obrigada. Vem do trabalho?
— Do ginásio.
— Ah. Então pode levar o das batatas.
— Ah. Então pode levar o das batatas.
Esta história sobre não mudar o mundo começa num ginásio porque começar a fazer exercício e mudar o mundo sofrem, em escalas diferentes, do mesmo fascínio: gostamos da versão heroica das coisas. A que começa com uma decisão total, merece uma fotografia e, se possível, uma montagem em câmara lenta com música de filme de boxe.
Queremos salvar o planeta, perder oito quilos, aprender mandarim e começar a acordar às seis. De preferência tudo a partir de segunda-feira. O problema é que, a seguir, chega terça-feira.
A D. Celeste não mudou o mundo, pelo menos que o saibamos. Foi ao mercado durante trinta anos. E, ao que tudo indica, chegou mais longe do que nós.